Canal do Panamá

Pode-se considerar que um dos maiores obstáculos à construção de um canal que ligasse o Oceano Atlântico ao Pacífico, por parte dos norte-americanos, era a presença inglesa no Caribe. A Grã-Bretanha era ainda senhora de numerosas possessões na região, tais como as ilhas Bermudas, Bahamas, Virgens Britânicas, Antígua, Trinidad-Tobago e uma base naval nas Honduras Britânicas (atual Belize). Assim, qualquer projeto ambicionado por parte dos norte-americanos naquela região estratégica implicava em algum tipo de entendimento com os ingleses.

Como resultado desse impasse, ambos, Estados Unido e Grã-Bretanha, firmaram o Tratado Clayton-Bulwer, pelo qual concordavam em não construir um canal sem a mútua participação ou consentimento.

Na medida em que se prolongava a indecisão de ambos e a Inglaterra se mostrava desinteressada em envolver-se numa obra daquele vulto, coube ao engenheiro francês Ferdinand de Lesseps, o construtor do Canal do Suez, obter a concessão para sua construção junto ao governo da Grã-Colômbia, em 1879. Desgraçadamente para Lesseps, após uma série de erros técnicos, a sua companhia faliu, dez anos depois, após ter consumido 250 milhões de dólares sem nenhum resultado. Demonstração de que o colonialismo francês, já no final do século XIX, não suportava arcar com obras de tal dimensão1. Em 1894, um engenheiro da antiga companhia de Lesseps fundou a Compagnie Nouvelle du Canal de Panama para se encarregar da massa falida bem como tratar de vender o espólio a algum comprador.

Inspirado na vitória sobre a Espanha na guerra de 1898 e nas evidentes vantagens estratégicas que lhe proporcionaria a construção de um canal que ligasse os oceanos Atlântico e Pacífico, cortando a província colombiana do Panamá, o presidente Theodore Roosevelt, apelando para meios pouco convencionais, lançou as bases concretas para que o seu país se tornasse uma potência mundial.

Theodore Roosevelt, percebendo as vantagens estratégicas de dar começo a uma grande construção cortando o istmo, não hesitou, pagando 40 milhões de dólares pelas ações da antiga companhia francesa falida. Depois dos tratados Hay-Paucefote, a Inglaterra não somente desistiu de ser sócia na construção de um conduto interoceânico como também aceitou que os Estados Unidos fortificassem militarmente a futura Zona do Canal. Livre dos impedimentos internacionais, Roosevelt tratou de obter a permissão do Congresso para iniciar as obras (Lei Spooner). A Colômbia, no entanto, mostrou-se arredia.

Como a concessão que havia dado à companhia de Lesseps estava para findar em 1903, esperavam os seus governantes revendê-la a um preço mais compensador para a república. Roosevelt entendeu o gesto dos colombianos como uma extorsão, classificando-os nada mais do que bandidos. Foi então que o big stick os atingiu.

Em outubro de 1903, os funcionários da companhia sediada no Panamá, aliados a José Augustin Arango, o representante da Panama Railroad Company, chefe da junta local, foram estimulados a criar um movimento separatista, proclamando a independência da região do Panamá. Vindo em socorro desse pseudomovimento autonomista, os fuzileiros norte-americanos, a bordo do encouraçado Nashville, desembarcam em Cólon, impedindo a reação dos colombianos. Ironicamente, os Estados Unidos alegaram estarem cumprindo com os dispositivos de um antigo tratado, o Bidlack-Mallarino, firmado em 1846, que os permitia auxiliar a Colômbia a restabelecer a ordem caso a área do istmo estivesse conflagrada por alguma desordem qualquer. À república da Grã-Colômbia, mutilada com a perda daquela província, nada mais restou do que aceitar o fato consumado de que doravante os norte-americanos seriam os senhores de fato das terras panamenhas.

Em novembro de 1903, firmou-se em Washington o Tratado Hay – Bunau Varilla, também chamado de Isthmian Canal Convention, que dava aos Estados Unidos o domínio perpétuo sobre uma zona de 16 km de largura através do istmo, de um costa a outra. Em troca, os Estados Unidos da América pagariam dez milhões de dólares e um arrendamento de 250 mil dólares anuais aos panamenhos2. Posteriormente, este tratado foi várias vezes denunciado por patriotas panamenhos, pois Bunau Varilla não era cidadão panamenho, mas sim um simples sócio de uma empresa concessionária francesa.

Em 1904, assumindo o protetorado sobre o Panamá, o governo americano tomou posse formalmente da Zona do Canal, dando início às obras que seriam concluídas dez anos depois, em 15 de agosto de 1914, ao preço de cinco mil mortos, vítimas da malária e da febre amarela, e a um custo de 360 milhões de dólares, o Canal foi aberto ao comércio do mundo. Para tentar cicatrizar as feridas abertas no sentimento nacional dos colombianos, os Estados Unidos, posteriormente, em 1921, num tratado especial de reconciliação, indenizaram a república com 25 milhões de dólares. Inspirados na grande estratégia do almirante Mahan, a América do Norte passava assim a ser uma potência de projeção mundial com a possibilidade de exercer o controle sobre os dois grandes oceanos.

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